A Prefeitura do Paulista, por meio da Secretaria Executiva de Imprensa, relembra os 25 anos do sepultamento solene dos restos mortais de um dos protagonistas da Revolução Pernambucana de 1817.
Reconhecido por sua atuação no movimento, o padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro teve seus restos mortais sepultados com honras no interior da Igreja Matriz, após quase dois séculos de sua morte.
João Ribeiro Pessoa de Mello Montenegro nasceu em Tracunhaém, município da Mata Norte do Estado, em 28 de fevereiro de 1766, e foi um dos 70 padres envolvidos na luta que almejava tornar Pernambuco uma república independente de Portugal.
Homem culto, entrou para a vida religiosa no convento do Carmo, estudando depois no Seminário de Olinda e em seguida no Colégio dos Nobres, em Lisboa.
De volta a Pernambuco, dedicou-se ao lado de outros religiosos ilustres, como Frei Caneca, Padre Roma e Frei Miguelinho, à articulação e à liderança da revolta, também conhecida como Revolução dos Padres.
O grupo de revolucionários chegou a instalar um governo provisório no Recife em março de 1817, permanecendo no poder por pouco mais de dois meses.
Mas a reação do Império não demorou, e o padre João Ribeiro precisou sair da capital com uma tropa do chamado “exército patriótico”, dirigindo-se à região onde ficava o então Engenho Paulista, que tempos depois daria origem ao município.
Ao pararem no local, ficaram sabendo da derrota do movimento e da execução de vários companheiros revolucionários.
“A história do padre João Ribeiro se liga à do Paulista nesse que foi o momento mais crítico de sua vida, quando, ao se ver derrotado, teria tirado a própria vida por enforcamento na capela de Nossa Senhora da Conceição, localizada no engenho”, conta o historiador José Ricardo de Souza.
Seu corpo chegou a ser sepultado ao lado da capela, mas três dias depois, com a chegada dos soldados das forças governamentais, foi desenterrado, mutilado e esquartejado.
A cabeça foi exposta na Praça do Pelourinho, área próxima ao local onde hoje fica o Marco Zero, no Recife, e permaneceu ali por dois anos, até que o crânio fosse recolhido e entregue à família.
Após a morte dos familiares do padre, o crânio foi doado ao Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), onde ficou até 2001.
“A diretoria do Instituto entendeu que, sem o sepultamento, o castigo do padre seria perpetuado e, junto ao Governo do Estado, à Arquidiocese de Olinda e Recife, e à Prefeitura do Paulista, resolveu sepultá-lo dignamente e de modo cristão, num gesto de respeito ao homem público e de ideal nacionalista que ele havia sido”, relata o historiador.
Quase dois séculos depois, organizada pela Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes do Paulista, com o apoio das instituições envolvidas, a cerimônia contou com a participação da Paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres de Maranguape, representada pelo então pároco, padre Valdemir José da Silva.
O sepultamento ocorreu em 29 de outubro de 2001, 184 anos após a morte do religioso.
A solenidade começou com a colocação do crânio em uma urna de madeira na sede do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), no Recife.
Em seguida, a urna foi transportada até Paulista em um Cadillac funerário de luxo, modelo de 1929, acompanhada por batedores da polícia e por um cortejo de automóveis com representantes do Instituto e do Governo do Estado.
Após a chegada a Paulista, a urna foi recebida com honras militares e salva de tiros, diante de uma multidão reunida na cidade.
Em seguida, foi levada até a Igreja de Santa Isabel Rainha de Portugal, também conhecida como Igreja Matriz do Paulista, no Centro, e depositada em um túmulo construído especialmente para receber os despojos do padre, dentro das dependências do templo, à esquerda da entrada principal.
Em seguida, foi celebrada uma missa pelo padre Valdemir da Silva, que pediu perdão ao herói pernambucano “pelo silêncio, descaso e anonimato” da Igreja Católica para com seus restos mortais.
Atualmente vinculado à Paróquia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, o padre recorda aquele momento.
“Achei formidável poder conhecer a história de Pernambuco e essa luta para torná-lo independente, que teve a participação de tantos religiosos”, comentou.
“Concordei que os restos mortais do padre João Ribeiro, líder importante desse movimento, recebessem um sepultamento digno, que não tiveram à época de sua morte.”
Para Demétrio Andrade, que era o secretário de Turismo e Cultura do Paulista na época, o significado maior da solenidade foi “termos dado o repouso eterno ao revolucionário e herói pernambucano, que idealizou a bandeira do nosso estado”.
“Meu sonho era ver o município de Paulista transformando este espaço onde se encontra o túmulo em um local permanente de visitação, de multiplicação do legado da independência do nosso Pernambuco como País”, destacou.
Além da sepultura na Igreja Matriz, o líder revolucionário também é lembrado por meio da Comenda Padre João Ribeiro, honraria concedida pelo poder público municipal a pessoas que, por suas trajetórias e serviços prestados, contribuem para o desenvolvimento local.
“O padre João Ribeiro precisa sempre ser lembrado. Acho muito interessante que ele tenha sido sepultado na nossa principal igreja, após tudo o que aconteceu de trágico no fim de sua vida. Carregar esse artigo histórico é algo memorável e valoroso de se ter em uma cidade”, avaliou a estudante Samielly dos Santos, 19 anos, moradora do município.
“Enfim, Paulista concedeu honrarias e o descanso merecido ao herói de 1817, que teve papel fundamental na única revolta colonial a chegar ao poder antes da Independência do Brasil, e que transformou Pernambuco em um país durante 75 dias”, resumiu o historiador José Ricardo Souza.